Francisco Oliveira Simões

Crónicas do passado

O labirinto obscuro

 A entrada descomposta e velha daquelas escadas de madeira podre e carunchosa, não faziam prever o inferno e infortúnio que nos aguardava no cimo do primeiro patamar. O elevador parecia algo mais fiável apesar de tudo. Ao optarmos pela segunda hipótese podíamos estar condenados à paragem frequente dessa máquina enganosa e diabólica.

O chão do pavimento era formado por tacos meio soltos. Avistámos as portas da desgraça, mas não tinham placa, nem sequer qualquer espécie de sinalização. Mesmo assim, corajosos decidimos bater à porta, com a virtude característica dos heróis gregos. As grades das masmorras abrem-se bruscamente, sob o rangido da morte e a putrefação solta-se no ar batendo-nos de frente. Era o Caronte quem nos recebia.

O ar impetuoso reinava numa capa de malogrado ceticismo. Julgavam estes seres que nós, vindos da Polis, éramos meros mortais incultos e insensatos. 

Não será fácil para o leitor imaginar o cenário que irei transcrever nestas linhas imaculadas. Quando Dante nos delegou a sua visão do inferno, nunca mencionou tamanha loucura ou grotesca infelicidade.

Os demónios perfilavam-se diante de nós, envergando vestes escabrosas, só depois entendemos que se tratavam de almas caídas em desgraça naquele antro de perdição, tão negro e obscuro, coberto por uma fraca iluminação. Mas já se encontravam moribundas, entregues a devaneios e funestas conversas. Nós tentámos manter a pose translucida da bondade e retidão.

                Os carrascos caminhavam de forma acelerada, transportando as almas penadas, que seguiam, quais cordeiros, o seu falso pastor. Esses monstros de muito mau gosto, traziam vestes de cores garridas, sem nenhuma conjugação possível.

                No local onde aguardávamos sentados, esperando a nefasta hora do castigo final, aos nossos pés repousava um tapete de incontáveis cores e pavorosa dissimetria, nem sequer era digno da presença dos vivos, quanto mais da dos mortos.

                Peixes nadavam nas paredes brancas da caverna labiríntica. Um som ecoava nos nossos ouvidos, parecia ser a melodia mais lúgubre e vil que alguma vez alguém executou na História.

Os minutos iam passando devagar, até se transformarem em quase uma hora de espera incansável. As perguntas eram mais que muitas. Onde Estávamos? Seria aquele o Reino de Hades ou de Nergal? O inferno?

                Nós partimos destemidos da nossa terra natal, com a esperança de descobrir um bom porto, mas em vez disso conhecemos os horrores e agruras de um ambiente perverso e delinquente, onde os corvos ansiavam a nossa queda e subsequente delírio, para se regozijarem em festim, pela luta da nossa carne.

                Não queríamos isso, tudo menos isso. Tentamos desesperados a saída daquele calabouço hostil. Dirigimo-nos a um carrasco demasiado volumoso para as roupas que carregava, e dissemos as imortais palavras, que ainda hoje ecoam nos corredores daquele túnel sangrento.

                - Temos de nos ir embora, já temos coisas combinadas, e isto está a demorar.

                - Mas ainda não foram entrevistados – ripostava com voz cavernosa e malévola.

                - Não há problema, fica para a próxima – respondemos, nervosos.

                Saímos dali com uma rapidez anormal, pode ser que a próxima entrevista corra melhor. Nem todos os trabalhos são o inferno na terra, mas quando um já o é mesmo antes da entrevista é muito mau sinal.

 


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