João Pedro Matos

Tesouros da música portuguesa

A dança das concertinas

 

Reza a História que o físico inglês Carlos Wheatstone começou a sua vida profissional a trabalhar numa fábrica de instrumentos musicais, antes de adquirir uma oficina. Mais tarde, publicou um estudo que resultou das suas investigações sobre os fenómenos da transmissão dos sons. Não obstante a oficina de Wheatstone ser dedicada aos instrumentos de corda, ele inventou um instrumento de ar em 1829 que receberia o nome de concertina. Nesse mesmo ano, o austríaco Cyrill Demian construiu um instrumento afim que ficaria conhecido como acordeão. Assim chamado, porque cada botão era capaz de produzir dois acordes: um fechando o fole e outro abrindo-o.

Hoje, o acordeão é um instrumento de grande divulgação mundial. Introduzido em Portugal no século XIX, o acordeão diatónico (vulgarmente conhecido como concertina) só no século XX é que foi apropriado pela música tradicional do norte do país, região onde alcançaria enorme popularidade. Talvez pela sua sonoridade estridente, este instrumento casa na perfeição com o folclore e aparece bem integrado nas orquestras regionais.

Este preâmbulo serve para apresentar um dos melhores grupos de concertinas de Portugal. E falar daquela que foi a sua auspiciosa estreia discográfica.

Oriundos de Águeda, chamam-se Danças Ocultas e são um quarteto constituído por Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel. Fundado em 1989 por Artur Fernandes, e batizado em 1994, o grupo escolheria essencialmente música erudita como reportório. Até o projeto amadurecer e gerar o primeiro registo de inéditos, corria já o ano de 1995. Produzido por Gabriel Gomes, acordeonista da Sétima Legião e dos Madredeus, a gravação do disco contou também com a presença de Paulo Abelho, músico dos Cindy Kat. Este tomou o lugar de assistente de som. Gabriel Gomes desempenhou ainda o papel de compositor nas faixas Quartetra, Dança II e Concerteza. O grupo agradeceu, em especial, a Jorge Pires, a Amândio Bastos e a Rodrigo Leão pelo seu apoio e disponibilidade.

O disco mostra outras facetas da concertina, além de ser um instrumento vocacionado para a dança, começando por Folia que explora o som primordial do fole do instrumento, continuando em No(c)turno que é a profunda beleza revelada pelas concertinas, até ao tema de gosto popular da Moda Assim ao Lado. E todas as colaborações que tiveram então anunciariam o seu trajeto futuro, que passaria por trabalhar com alguns dos nomes mais importantes da música portuguesa: o Ballet Gulbenkian, Maria João e Mário Laginha, Gaiteiros de Lisboa, entre outros.

A edição de 2010 do Festival Internacional Womex, um dos principais certames dedicados às músicas do mundo, selecionou as Danças Ocultas na sequência da edição do seu álbum de 2009, intitulado Tarab. Quando comemoraram vinte e cinco anos de carreira, deram espetáculos com a Orquestra Filarmonia das Beiras, colaboração que culminou em 2016 com a edição de Amplitude, disco ao vivo onde são convidados Carminho, Dead Combo e Rodrigo Leão.

As Danças Ocultas têm realizado concertos em todo o mundo, merecendo destaque a recente digressão que fizeram por várias cidades na China, sempre com amplo reconhecimento do público e da crítica. E tudo isto com o objetivo da divulgação da música instrumental, revelando todas as potencialidades de um instrumento que tem cada vez mais amantes e executantes. 

 


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